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PROGRAMA - Temporada 2010/2011
1.
No Teatro Municipal de
Almada, de 22 a 26 de Setembro 2010
O TEATRO DA CORNUCÓPIA
recomeça actividade fora de portas, com a reposição já
no dia 22 de Setembro de Ifigénia na Táurida de
Goethe na recriação poética de Frederico Lourenço com
Beatriz Batarda como protagonista no Teatro Municipal de
Almada com quem a Cornucópia mantém uma colaboração
regular.
IFIGÉNIA NA TÁURIDA
de
Johann Wolfgang von Goethe
(Reposição)
Recriação poética
Frederico Lourenço
Encenação
Luis Miguel Cintra
Cenário e figurinos
Cristina Reis
Desenho de luz
Daniel Worm D’Assumpção
Interpretação
Ifigénia
Beatriz Batarda
Toas, rei dos Tauros
Luis Miguel Cintra
Orestes
Paulo Moura Lopes
Pílades
Vítor d’ Andrade
Arcas
José Manuel Mendes
No
fim do século XVIII, momento de grandes transformações
políticas e culturais na Europa, Goethe, apaixonado pela
cultura grega da Antiguidade, volta a trazer para o
teatro a história de Ifigénia, a filha de Agamemnon e
Clitemnestra. A peça conta o dia em que seu irmão
Orestes, perseguido pelas Fúrias, chega com o amigo
Pílades à Táurida onde Ifigénia vive exilada como
sacerdotisa de Diana ao serviço do rei bárbaro Toas. Com
a sua revisão do mito antigo, Goethe questiona em versos
belíssimos o conceito de humanidade, a relação dos
homens com os deuses, a tensão entre a ideia de destino
e a liberdade, a condição das mulheres, e a própria
noção de soberania política. É a defesa da paz, de uma
nova ética, do equilíbrio do sentimento com a razão, de
nova harmonia nas relações humanas, e de uma renovação
das consciências.
2.
No Teatro do Bairro Alto,
de 30
de Setembro
a 17
de Outubro
2010.
Digressão em Espanha:
Segóvia 20, 21,22 e 23 de Outubro. Elche
24 de Outubro. Alcalá de Henares 4, 5,
6, 7 de Novembro.
Co-produção
Teatro da Cornucópia/ Nao d’amores
Poucos dias depois
prossegue no Teatro do Bairro Alto a carreira do último
espectáculo da Companhia, estreado em Julho, integrado
no Festival de Almada: uma co-produção, com a Companhia
espanhola
Nao d’amores,
dirigido por Ana Zamora, espectáculo bilingue, com
participação de elementos de ambas as companhias. Depois
dessa muito curta série de espectáculos, o espectáculo
partiu para Espanha onde abriu o Festival de Teatro
Clássico de Olmedo, e esteve em Gijón integrado no
Festival de Música Antiga e no Festival de Teatro
Clássico de Almagro, o principal festival de Teatro
clássico espanhol. Quer em Lisboa quer em Espanha a
recepção ao espectáculo tem sido entusiástica. El
País refere-se ao espectáculo como “uma montagem
brilhante”, “uma surpresa maiúscula e gostosa”. É
unânime a ideia de que se trata do melhor espectáculo da
encenadora e a interpretação de Luis Miguel Cintra é
elogiadíssima. Em Portugal Lauro António chegou a dizer
no seu blogue: “Há espectáculos perfeitos.
Redondos. Burilados como obra de relojoaria. Ou de
ourives, como dizia alguém a meu lado. “Dança da Morte”
é um desses mágicos objectos de palco, onde tudo parece
estar no seu lugar, no seu tempo, na sua duração, com a
palavra certa, o movimento e a luz, a cor e o som, a voz
e a música.”
Volta a Lisboa no final
deste mês para mais 16 representações no Teatro do
Bairro Alto e andará depois em digressão por Espanha,
onde se apresentará até ao Natal em Segóvia, Elche,
Alcalá de Henares e Siguenza.
DANÇA DA MORTE / DANÇA DE LA MUERTE
(continuação da carreira do espectáculo
estreado em Julho)
Dramaturgia e encenação
Ana Zamora
Interpretação
Luis Miguel Cintra, Sofia Marques e Elena
Rayos
Interpretação musical
flautas, cromorne e chirímia
Eva Jornet,
viola de gamba
Juan Ramón Lara,
órgão
Isabel Zamora
Arranjos e direcção musical
Alicia Lázaro
Figurinos
Deborah Macías
Cenografia e apoio para manipulação de marionetas David
Faraco
Desenho
de luz
Miguel Ángel Camacho (A.A.I) e Pedro Yagüe
Nao
d’amores
é uma estrutura profissional independente, criada em
2001e dirigida por Ana Zamora, que tem vindo a
apresentar com enorme sucesso espectáculos que pretendem
ser a reinvenção de um teatro primitivo com uma
qualidade lírica muito particular, a partir de textos e
música antiga peninsulares, e recuperando várias formas
de expressão artísticas de influência tradicional
popular como danças, marionetas, música ao vivo com
réplicas de instrumentos antigos, e elementos vários
inspirados no folclore tradicional. A companhia já
apresentou em Portugal, convidada pelo Festival de
Almada, O Auto dos Quatro Tempos de Gil Vicente,
e no Teatro do Bairro Alto, o Misterio del Cristo de
los Gascones. Desta vez e a convite da Cornucópia,
faz uma criação em Portugal, ensaiada e estreada no
Teatro do Bairro Alto, com a colaboração do Festival de
Almada e nele integrada, que parte do texto Castelhano
do século XV Dança General de la Muerte e que
integra também textos vários de Gil Vicente. Trata-se de
uma nova abordagem do tema das Danças Macabras tão
tratado por toda a Europa no fim da Idade Média. Segundo
Ana Zamora, “Dança da Morte/Dança de la Muerte é
uma fantasia da imaginação popular, uma viagem no tempo
para reviver os mitos que ajudaram a mitigar o absurdo
da morte, nascida no actual contexto cultural, em que se
tende a negá-la e a afastar a sua lembrança,
substituindo o ancestral anseio de imortalidade por uma
imatura ficção de “a-mortalidade”.
3.
CICLO MÁSCARA/MORTE/
REVOLUÇÃO
A nova programação para a
temporada 2010/2011 da Cornucópia consiste num prólogo e
um díptico.
No díptico, programámos
dois textos de autores muito diferentes, mas que ambos
põem em jogo com situações de Revolução o tema da
representação, da máscara, da verdade e da mentira nos
comportamentos humanos, ou seja, a própria ideia do
teatro: A CACATUA VERDE de A. Schnitzler e A
VARANDA de Jean Genet. Dir-se-ia que são autores
opostos. Se a Schnitzler associamos a elegância e a
sofisticação de uma Áustria de princípio de século XX, a
Genet associamos o lirismo brutal do baixo mundo do
crime e da marginalidade. Mas se Schnitzler situou a sua
peça numa taberna onde actores para divertimento dos
clientes nobres representam que são marginais, Genet
situou a sua num bordel que é uma casa de ilusões onde
os clientes têm prazer nas fantasias que as prostitutas
lhes facultam para fingir que são poder. O sentido da
escala social é inverso mas a operação é semelhante. Nos
dois casos, são locais sociais e sexuais por excelência:
dois bordéis. Dois teatros. Onde o fingimento é
organizado e se desorganiza na hora da verdade. Em ambos
os casos em tempo de Revolução. Nos dois casos a
revolução está na rua: no caso de Schnitzler, é uma peça
falsamente histórica que se passa no dia 14 de Julho de
1789, enquanto lá fora estão a tomar a Bastilha. No caso
de Genet, uma talvez falsa Revolução vencida pela
Polícia. Enquanto o Mundo muda, a sociedade entretém-se
em bailes de máscaras fatais.
À programação desses dois
complexos textos vai a Cornucópia antepor um pequeno
espectáculo que funcionará como Prólogo à encenação dos
outros e que tem por título: FIM DE CITAÇÃO. É
uma colagem de textos de Luis Miguel Cintra que ligarão
a própria história da Companhia e o trabalho do actor a
esta mesma temática, no fundo a mesma de um texto que se
tornou emblemático da sua história, A MISSÂO de
Heiner Müller de que ainda hoje soa nas nossas cabeças o
refrão: A REVOLUÇÃO É A MÁSCARA DA MORTE A MORTE É A
MÁSCARA DA REVOLUÇÃO.
3.1
No
Teatro do Bairro Alto de 18 de Novembro
a 12 de Dezembro
FIM DE CITAÇÃO
Um prólogo, um “lever de
rideau”, uma advertência de Luis Miguel Cintra
a partir de Beckett,
Genet, Garcia Lorca, Calderón, Kleist, Tchekov,
Schnitzler, Luiza Neto Jorge, Shakespeare, Pirandello,
Heiner Müller e Louis Jouvet.
Encenação
Luis Miguel Cintra
Cenário e figurinos
Cristina Reis
Desenho de luz
Daniel Worm D’Assumpção
Interpretação
O
encenador
Luis Lima Barreto
A
Assistente de encenação
Sofia Marques
O
Contra-regra
Dinis Gomes
O
Actor
Luis Miguel Cintra
O
atelier do pintor com o seu modelo. Devia haver um
espelho que, assim como nas Meninas de Velásquez
reflecte o rei e a rainha, modelo da imagem que não se
vê pintada, aqui reflectisse o público, o actor de
costas e o encenador de frente. Num sofá, de casaco de
peles preto, ¾ costas, o encenador sentado. Uma manta
vermelha sobre as pernas. Óculos escuros. A centro um
cubo negro sobre o qual está o actor de pé, imóvel, de
fato de macaco preto empunhando a bandeira petrificada
da Missão 2. Há um fotógrafo. É o contra-regra. A
máquina fotográfica é antiga, dessas sobre um tripé e
com uma manga preta onde quem fotografa enfia a cabeça.
O Contra-regra tira fotografias ao actor. A Assistente
de encenação colabora na sessão de fotografia. Vai e vem
entre o Actor, o Encenador e o Contra-regra. Ouve-se o
Dansons la Carmagnole, canção da Revolução
Francesa. O Encenador espera. Um jogo.
3.2
No Teatro Nacional
Dona Maria II, de 17 de Fevereiro a
27 de Março 2011
Uma co-produção do Teatro
Nacional D. Maria II com o
Teatro da Cornucópia
A
CACATUA VERDE
de
Arthur Schnitzler
Tradução
Frederico Lourenço
Encenação
Luis Miguel Cintra
Cenário
e Figurinos
Cristina Reis
Desenho
de luz
Daniel Worm D’Assumpção
Interpretação
Catarina Lacerda, Cleia
Almeida, Dinis Gomes, Duarte Guimarães, Gonçalo Amorim,
João Grosso, José Airosa, José Manuel Mendes, Luis Lima
Barreto, Luis Miguel Cintra, Miguel Melo, Ricardo Aibéo,
Rita Blanco, Rita Loureiro, Sofia Marques, Tiago Matias,
Vítor D’Andrade, etc.
A
Cacatua Verde
de
Schnitzler é aparentemente uma peça histórica. A acção
situa-se na noite de 13 para 14 de Julho de 1789 em
Paris. Numa cave dos arredores de Paris, Próspero, um
velho director de uma Companhia de Teatro, abriu uma
taberna (A Cacatua Verde) onde a sua Companhia
finge que não faz teatro, e cria a ilusão de uma
verdadeira taberna de gente de mau porte, ladrões,
pedintes, prostitutas, marginais, possibilitando aos
nobres que a visitam a sensação, sem perigo, do contacto
com o povo e com os episódios excitantes das suas
violentas vidas. O processo complica-se quando, na noite
da Revolução Francesa, a violência da realidade faz
esquecer o processo de ilusão e a história que um dos
actores inventou, que a sua mulher, também actriz, o
trai sendo amante de um Duque, é entendida como
verdadeira, o que leva esse actor a assassinar o nobre
seu rival. Seja a razão do crime verdade ou ficção, o
crime acontece, mas a realidade da revolução faz com que
o acto ciumento do actor se torne num acto de heroísmo
na defesa do povo revolucionário e triunfante. E a
alegria do “Viva a Liberdade!” é vivida pelo casal como
o fim da sua felicidade.
A
profunda ironia, própria de toda a obra de Schnitzler,
torna a peça quase numa comédia em que o próprio teatro
entra em jogo, antecipando os temas caros a Pirandello.
Aqui a tensão entre sonho e realidade, ou ilusão e
verdade, adquire uma dimensão especial e particularmente
interessante pelo facto de a tensão entre ficção e
realidade incluir também a tensão entre a História e as
consciências individuais, e tocar a própria noção de
responsabilidade política. A taberna é uma Cave, o que
remete para a imagem da Caverna de Platão e o próprio
facto de o taberneiro se chamar Prosper-Próspero remete
para o processo ambíguo de A Tempestade de
Shakespeare. Afinal como em Pirandello, a peça fala mais
da vida que do teatro. Com a maior leveza e elegância, e
num único acto de uma economia exemplar, Schnitzler
desenha um teatro de sombras da própria Revolução, que é
um prodígio de ironia na revelação da profunda
complexidade do real.
3.3
No Teatro do Bairro
Alto, de 9 a 12 de Junho e de
23 de Junho a 24 de Julho
2011
A
VARANDA
de Jean Genet
Tradução
Armando Silva Carvalho
Encenação
Luis Miguel Cintra
Cenário
e Figurinos
Cristina Reis
Desenho
de luz
Daniel Worm D’Assumpção
Interpretação
Beatriz Batarda, Dinis
Gomes, Dinarte Branco, João Grosso, José Airosa, José
Manuel Mendes, Luisa Cruz, Luis Lima Barreto, Luis
Miguel Cintra, Ricardo Aibéo, Rita Durão, Sofia Marques,
Tiago Matias, etc
A
Varanda
é uma das mais comentadas e discutidas peças do século
XX. E também uma das mais desejadas e temidas pelos
encenadores. Nenhum dos grandes encenadores que a
trabalharam conseguiu agradar a Genet na sua abordagem e
não foram poucos: Peter Zadek,
Peter Brook,
Erwin Piscator,
Roger Blin,
Giorgio Strehler.
Teria sido ao que parece a encenação de Vítor Garcia
para Rute Escobar em S. Paulo aquela que mais perto
estaria do que Genet podia imaginar quando definia a
peça como uma glorificação da imagem e do reflexo. Ao
contrário do que o título poderia levar a crer, tudo
nesta peça é fechado em si próprio. Entre imagem e
reflexo, e anulado o ser, ou a Verdade. Tudo se passa
numa espécie de sistema fechado, como uma grande câmara
de espelhos: a Varanda é o nome de um bordel ou casa de
ilusões, dirigida por Irma e a sua ajudante Carmen. As
prostitutas ajudam a construir fantasias para o prazer
dos clientes que imitam ou espelham as relações e as
estruturas do Poder: a Igreja, a Justiça, o Exército, a
Polícia, mas também a relação patrão/escravo e
rico/pobre e as relações amorosas. As cenas vão-se
sucedendo como variantes da mesma ideia até à cena da
própria Morte, associada ao momento da derrota de uma
Revolução que não se sabe se realmente se está a passar
lá fora, se faz parte da ilusão. Quando a janela da
Varanda finalmente se abre sobre a praça e as
personagens aparecem à varanda, ela está transforma-se
em espelho, na imagem que a praça quer ver, a imagem do
poder. Numa moldura. E a praça: o poder que a praça
glorificaria. Ou melhor, as imagens do poder. A
violência política e poética do texto transformam esta
peça num espécie de bárbara oratória, talvez um reflexo,
ou uma imagem do nosso viver com os outros.
As suas personagens são construídas através de um jogo
entre o discurso consciente e o discurso inconsciente,
como se se tratasse de um puzzle psicológico e emocional
complexo, que se revela perante as situações dramáticas.
Quase tudo o que acontece, acontece através do discurso
e do pensamento. Talvez seja esta a razão que torna as
suas personagens tridimensionais e actuais.
CONTACTOS
Teatro
da Cornucópia / Teatro do Bairro Alto
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